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terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

“Um laivo de lirismo nunca fez mal a ninguém”


Sarava!


“Um laivo de lirismo nunca fez mal a ninguém”.

Posto isto, vou descrever os meus caminhos habituais quase em piloto automático que faço desde casa ao trabalho. Se calhar culpa deste sol, o percurso que repito diariamente parece-me sempre novo.

Desde a curva, da saída para o campo alegre, que me faz espreitar, por entre as casitas e os estendais, o rio trémulo e brilhante sob as pontes.

Depois as bandeiras do Hotel Ipanema que me acenam coloridas como que a dizer “Bom dia alegria!”.

E, hoje, até as ilhas de cabelo, rodeadas pela calvisse, de homens de meia-idade me pareciam simpáticas. Apesar de não me ter apaixonado, até a montra dos chineses da rua da Torrinha me entretinha, com os seus gatinhos de plástico, a pilhas, a mexerem-se.

Pudesse eu escrever histórias, e condimentá-las... e o meu dia estaria completo.


_E se eu fosse puta...Tu lias?_


P.S.- Imagem da obra de Nuno Machado, 138x138cm, acrílico s/MDF lacado, 2010

terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Pinchos


Sarava!

Muitos saravas, já que estou em falta desde o ano que acabou.

E por falar em fins… tenho para mim que se enganaram nas previsões do fim do mundo, ora em 2000, que já sabemos por experiência (ou sobrevivência) que não teve fim, ora para 2012, alertado pelos Maias e por Hollywood, mas que me parece também que não vai acontecer.

Aliás, estou convencida que deste ano não escapamos, depois das chuvas torrenciais, dos ventos arrasantes, do frio gelado, do muito recente e avassalador terramoto, fica quase certo que este ano redondo vai ser o fim (se não for o do mundo há-de ser o de muitas outras coisas).

Entretanto, percebi que ando a centrar os meus textos na fase crítica (minha e de tantas mulheres) do período. Mas por outro lado, concluí que é uma fase criativa…logo, aproveito para partilhar que descobri um dia ideal para morrer. Um com o período sobretudo se for no primeiro dia, assim estaria suficientemente deprimida (e fértil) mas também não estaria ainda chéché.

Outra coisa que aproveito para expressar e apelar é para acabarem com as publicidades do pingo doce! Fico o dia inteiro a cantarolar aquelas coisas, como “venha ao pingo doce de Janeiro a Janeiro, la la la”…

Acabo com um beijo ou um poema em jeito de até breve.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra-nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
(Ary dos Santos)


_E se eu fosse puta…Tu lias?_

p.s.- Imagem de uma obra de Nuno Machado

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Domingos de luz!


Sarava!


O dia de ontem assegura a qualquer mulher, em TPM, que o céu chora bem mais do que ela em qualquer domingo assim, trágico.


Gostava de vos segredar as minhas mais recentes descobertas. A ter algum dia o dom da maternidade será certamente antes de completar os 35 anos (que ainda me falta imenso). Esta descoberta/decisão deve-se à amniocentese que a minha amiga Inesinhazzz fez hoje. Não é que lhe espetaram uma agulha gigante pela barriga adentro??!! Isto tudo por ser gravidez de risco...por ter o 1º filho com 37 anos! Grrrrrrrrr... a mim nesta não me apanham, mesmo que isso implique permanecer titia para o resto dos meus dias!


Mais, quero o marido da Julie, do filme ranhoso que está agora nos cinemas em que entra a Meryl Streep. Bom, isto se ele deixar de comer do modo em que se apresenta no filme... porque de resto é perfeito! Paciente, bonito, jeitoso e inteligente.


Outra coisa que me pareceu importante foi lembrar-me do jogo “verdade ou consequência” que os miúdos da primária passam os recreios a brincar. Se este jogo fosse adaptado aos adultos em geral, a políticos em particular (não especifico os do face oculta) ia ser, no mínimo, interessante. Já os estou a ver... a terem que dar beijos à Dra. Manuela Ferreira Leite para não responderem com verdade às perguntas.


Ah, e por acaso viram que andam a fazer acupuncturas e tratamentos de luxo a cães??? Eu até pensei que estava a alucinar?!? É que em labradores a coisa ainda cola...agora pensar nisso em caniches ou em cães de microondas (daqueles com os dentitos de fora) até incomoda! Tratam melhor os cães do que as pessoas neste país!


Sem mais.


_E se eu fosse puta...Tu lias?_




p.s- Obra de Maurizio Lanzillotta, "A namorada do pinóquio com o amigo"impressão digital UV s/dibon, 50x50cm,2009

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Loucuras à flor da pele!


Sarava


Louco. O sujeito apaixonado é atravessado pela ideia que está ou vai ficar louco.
(Barthes)


Por falar de loucuras. Mas alguém é capaz de me explicar porque é que existem pessoas que dobram cuecas (e, antes, passam-nas a ferro)??

Após um domingo de há umas semanas, fiz (este “fiz” significa os louros que eu me estou a dar, porque, de facto, que fez foi a tal Joana) uma dolorosa arrumação ao meu armário verde alface/azeitona. E numa das gavetas forradas com umas divisórias esquisitas e modernas, daquela grande loja que tem tudo e mais do mesmo no que toca a mobília e seus adjacentes, guardaram-se as várias cuecas. Claro que não vou descrever aqui a minha lingerie, apenas adianto que há desde o boxer, à tanga e, até mesmo, à cueca de quase avó (estas últimas servem apenas para dormir e sozinha, ok?!).

O importante é esclarecer que não consigo entender a mania de se dobrar o raio das cuecas de uma forma xpto, que não se mantêm naquele jeito por mais de 3 segundos e que não há maneira de eu conseguir atinar em fazê-lo. Note-se que mesmo as cuecas quase de avó não são assim tão grandes que encorrilhem se não se dobrar…e caso acontecesse, mal se ajustam ao corpo (ou ao rabo) deixam de se notar quaisquer vincos mais evidentes.


Posto este meu manifesto/dúvida, aproveito para vos espantar (se é que ainda é possível) com a minha manhã no trânsito. Não é que hoje mesmo, já quando a manhã acabava, ia eu de carro (o mesmo de há 4 anos), na cidade periférica e pequena onde vivo há pelo menos 15 anos, no cruzamento que faço todos os dias….
E… Em vez de parar atrás do carro escuro que me sucedia diante o semáforo vermelho aceso, não… decido ultrapassa-lo e imaginar que estava à minha frente parado para qualquer coisa (que não tive tempo de imaginar). A parte mais impressionante é que depois do carro escuro estavam mais uma dezena de outros carros que também não tinham parado na berma da estrada, mas sim que aguardavam o sinal verde. Salvaguardo um pequeno detalhe, o de que a estrada tinha dois sentidos e não era muito larga…

Conclusão fez-se-me luz, de repente (durante a ultrapassagem, talvez por não poder conclui a manobra de imediato como o previsto), e, enquanto esperava que a fila começasse o percurso para eu entrar de novo na minha mão, estive a ouvir umas buzinadelas que vinham de todas as direcções, a absorver uns olhares de descrédito e ainda umas expressões confusas.

Salvei-me.

_E se eu fosse puta…Tu lias?_


p.s.- Obra da performance "O Estendal" de Filipa Guimarães

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Carta Aberta à Joana “que tinha que ter na minha vida”



È uma carta de amor,

Podia ser para alguém de família, um amigo

Ou para qualquer ser imprescindível na nossa vida

Queria escrever tão bem que te pudesse apenas com esta carta te segurar o coração.

Queria inventar palavras ou frases, qui ças poemas que te tornassem jóia.

Queria ser mesmo um génio.


Mas tu és uma coisa que voa, és Tu, és vizinha, és também Eu.


Sabes quase de cor os porquês das minhas sobrancelhas levantadas, ou do meu sorriso atrapalhado.

Conheces os meus arranhões (que não são feitos pela Conca), tens as minhas penas e confessas o que procuro esconder.

Cantar-te-ia tantas letras que soariam melhor. Escreveria grafittis.

És o meu querido e leal diário. És a minha margarida de primavera. És aquela que compra um par de sapatos com tamanhos diferentes. És a que me perde óculos de sol de 400€. És a que me ouve cerrar os dentes em noites duras.

És Tu, a Joana que eu tinha que ter na minha vida.






_E se eu fosse puta...Tu lias?_


p.s- Obra de Nuno Machado

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Hora com a cor da minha gabardine! Halleluia!



A esta hora o dia está com a mesma cor da minha gabardine. Um cinza aguado.

Os dias são compostos por imprevistos. As músicas esquecidas agora ganham som pertinente. As letras, essas abrem as palavras, e portanto as memórias.

Ando a perguntar como se descobrisse, como se o saber nunca me chegasse.

Gosto de me olhar ao espelho e de pensar se hei-de cortar ou não os caracóis, baptizados de maçãs incendiadas.


(pausa para lembrar poemas e poetas)


E hoje bastam-me os telegramas.




_E se eu fosse puta...Tu lias?_


P.S.- Obra de Frederico Ferreira! A frase que adoptei há dias...

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Arebaguandi


Sarava!



Esta chuva de dois dias parece-me de cem anos.

Em tempo de reflexões políticas e de campanhas que não acabam, será que ainda ninguém sugeriu que acabassem com os carros forrados a bandeiras e com musicas e falas que ninguém entende?!! É que a única coisa que se retém é que é de algum partido, mas de qual deles, ou o que dizem, ninguém consegue decifrar... e já cansam!


Falando de questões bem mais estimulantes (espero)... Gostava de ser uma pensadora, ou melhor nunca conseguiria ser, mas admiro tanto quem ousa pensar...
Vou citar um dos que li esta semana. Estava a repousar, há tempo, na biblioteca, que já foi de três casas. Tinha pó, daquele que se concubina com os livros, e um cheiro típico de guardado.
Subi as três escadas de madeira que me dá altura para os livros, que descansam dos nossos olhos, nos últimos andares. E peguei num de capa azul e oriundo das índias, com um separador feito à mão com prata dos maços de tabaco: “Comentários sobre o viver” de Krishnamurti.


Quando nos identificamos com outro, isso é indício de amor? Identificação é investigação? A identificação não põe fim ao amor e ao investigar? A identificação sem dúvida, é posse, afirmação da posse; e a posse nega o amor, não é exacto? Possuir é estar em segurança; a posse é defesa, um meio de nos tornarmos invulneráveis. Na identificação, grosseira ou subtil, há resistência; e pode o amor ser uma forma de resistência, autoprotecção? Há amor, quando há defesa?

O amor é vulnerável, flexível, receptivo; é a mais elevada forma da sensibilidade, e a identificação produz a insensibilidade. A identificação e o amor são incompatíveis: um destrói o outro.


_E se eu fosse puta...Tu lias?_


p.s.- pintura de Sarah Maple