domingo, 25 de março de 2012

Coisas de Remediada



Sarava!

Traí-vos. Escrevo agora também para um blogue de um vizinho. Escrevo cartas. Cartas das outras. Podem espreitar (http://discussaoemtornodeumlivro.blogspot.pt/2012/03/cartas-das-outras-julieta-don-juan.html).

Mas continuo por cá. Neste meu arco-íris.

O que vos queria contar… Quando vos disserem que o metro é um meio de transporte eficaz e confortável, não acreditem. É mito (pelo menos na Invicta).

Eu que já me habituava ao meu Ferrari nº204, decidi experimentar uma viagem de metro. Até porque já não aguentava ouvir os comentários de amigas incrédulas com o meu hábito de remediada, sustentando a ideia que o metro seria muito mais rápido, confortável e adornado de gente mais simpática. Foi um erro.

Imaginem (sim, porque mesmo eu só imagino) um concerto do Tony Carreira… Parecia a paragem da Trindade. Cheia de pessoas que se empurravam. O primeiro metro já com as portas bloqueadas foi impossível de apanhar. Veio o segundo, e após umas cotoveladas e uma ou duas calcadelas, lá entrei. Sem lugar sentado. Sem refrigeração suficiente, com odores que dispensava. E com imensos caloteiros que contribuem para aumentar a dívida dos transportes metropolitanos do Porto.
Nunca mais chegava. Nunca mais repetirei.

No regresso. Já no autocarro habitual, alcanço sempre lugar sentado. Convivo com pessoas civilizadas. E até consigo ouvir 5 bandas sonoras em simultâneo através dos auscultadores dos vários passageiros.

E muito recentemente um novo primeiro dia de trabalho. Os nervos eram a minha farda. A cor da minha pele era um rosa velho. E tudo o que podia acontecer-me aconteceu mesmo! Imaginem um final de manhã ainda desse 1º dia, enquanto acompanhava uma cliente, a minha sabrina (nº37 um ou dois números acima do meu, para não magoarem ao fim do dia os pés cansados e inchados) voou 3 metros. Saltou-me do pé e faz umas acrobacias aéreas enquanto eu planeava morrer instantaneamente. 

Acabei esse dia cansada e a descer três andares como quem procuraria um metro e se deparou apenas com um parque de estacionamento. Afinal onde estava o M gigante que anuncia uma estação de metro? Ou onde estavam os meus olhos?

Estou motivada.

_E se eu fosse puta…Tu lias?_

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Escreve num minuto




Escreve num minuto

“Não há nada mais triste do que um poeta sem palavras”.
Conversei, ontem, enquanto fumava e fumava com várias pessoas interessantes, daquelas conversas que podiam ser acompanhadas de bebidas e mel que libertam. Conversas interrompidas com gargalhadas e emoções. Conversas descontraídas mas limadas com pensamentos que nos fazem existir.
E o mais estranho foi que nos escrevíamos como se as palavras nos trouxessem as vozes, os sabores e os silêncios.

Lembrei-me há dias de um negócio se qualquer lado do mundo, menos da China. Ganchos de cabelo, e perdoem-me se vou excluir a comunidade masculina pouco ‘meterossexual’ desta leitura… Aqueles ganchos de cabelo fininhos pretos ou castanhos, discretos mas que prendem. É sobre eles o negócio.

Porque ainda não chamaram um designer de produto ou outro profissional para criar um gancho com estas características mas que não saia a pontinha do dito. Qualquer mulher já gastou 10000 vezes 0.75 cêntimos a comprar ganchinhos (o diminutivo foi especialmente escolhido porque neste universo feminino, nós teimamos em utilizá-lo) … Ora porque os perdemos em qualquer lugar, ora porque a pontinha sai na segunda ou terceira utilização e depois quase nos arranca o couro cabeludo (mas nós cometemos sempre esta tortura de utilizar um ou outro sem pontinha para desenrascar, e depois magoamo-nos sempre)….
Eu sei que deixar de os perder é quase impossível mas que não saiam as pontinhas!!! (nota: têm que manter a estética do discreto caso alguém se aventure em recriar este objecto)

A cor do anoitecer com nevoeiro do outro dia parecia destacar a serenidade daquela cidade pequena. E eu na janela via tudo. Até chegar Ao Anoitecer de Al Berto.

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia.

_E se eu fosse puta…Tu lias?_

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Os meus textos com Carlos Carreiro na Colecção de Carlos Carreiro


Sarava

Apresento-me com os meus textos. Escrevo porque não cansa. Podiam ser as obras de pintura do Carlos. Com o mesmo non sense, com os mesmos exageros. Faltam apenas neles o melodrama e intensidade (modéstia e presunção a minha) de quem é terrivelmente mulher.

Repito-me: ensaio-me todos os dias.

Talvez não me esconda tanto (ou seja tão invisível) como os sem abrigos em cabines telefónicas parisienses.

Esqueço-me. Como se herdasse da minha gata o seu Alzheimer precoce. Como se os gatos ou tantos animais fossem família e que geneticamente pudéssemos receber deles as suas maleitas. Ou até como se ficássemos parecidos com a convivência. Será que tenho mais pelos e os meus saltos são mais impetuosos?! Já suspeitei ter visto a minha gata a comer bife do lombo e arranhar histórias….!!

Redigo(-me): ensaio-me todos os dias.

Num destes dias rápidos, dominava eu uma furgoneta branca (como se fosse para uma destas feiras da ladra ou de Custóias) e tentava dominar os caminhos deste Portugal. De repente uma portagem, e eu sem via verde, por isso toca a tirar o recibo. Não consigo ficar próxima o suficiente da máquina e claro tenho mesmo que sair do veiculo para o fazer. Na saída, para além de voltar a ter que sair, não encontrei o senhor que esperava, mas uns 5 botões e tudo era automático. E como se não bastasse, um vento irritante decidiu levar o meu bilhete com ele uns metros e quando eu quase o apanhava, achava que ainda me tinha que continuar a provocar e afastava-o mais um pouquinho. E corria eu na auto-estrada enquanto insultava as maravilhas naturais. Não tive que pagar o máximo porque o agarrei a tempo de não ser atropelada.

Já no regresso, o senhor esperado lá estava no seu lugar carregando um bigode e um sorriso que acabaram por ouvir esta história antes de ser escrita. Conclusão: não gosto de furgonetas que tapam o sol das minhas costas, nem de máquinas que substituem senhores com bigode simpático. Gosto da minha gata e outros, gosto de histórias e das pinturas do Carlos.

_E se eu fosse puta…Tu lias?_

terça-feira, 21 de junho de 2011

texto meu a concurso

Sarava

Tenho o seguinte texto em concurso. Deixo o link para os meus caros vizinhos irem lá votar!


Se eu fosse um animal seria um atum.

Todo cor-de-rosa. Mas um rosa velho e delicado.
Andaria em bando ou em cardume. Nadava por azuis nunca antes sentidos.

Seria um atum-do-sul ou atum-foguete. Qualquer um que fizesse jus ao mito egípcio e que mantivesse o simbolismo do seu nome: totalidade.

Seria amigo de um precioso cavalo-marinho e ousava perguntar-lhe como era dar à luz sendo pai.

Se tivesse o azar de ser pescado acabaria certamente num prato de sushi bem decorado em vez de numa lata de conserva ou numa sanduíche rápida.

- Para a mesa. – Chama, em tom alto, a minha mãe como se eu estivesse longe.

Estava longe apesar das apenas duas divisões de distância. E o meu aquário mantinha-se sujo com o peixe infeliz. Presumo.

A minha memória é como ele…dá voltas e mais voltas e a maior parte das vezes não se lembra de ter lá estado.

- Vamos lá jantar? – Chama outra vez em tom mais doce e próximo. Mas não era a mãe. Era Constança, uma mulher que me trata como se eu tivesse não muito mais do que dez anos.

Tenho Alzheimer. Mas às vezes sou feliz, quando não me lembro. Presumo.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

À Ana com 25


Como eu gosto de escrever cartas.

Enquanto quiser, puder e as receberem, escreverei.


À Ana com 25,


Esta carta podia ser um vestido

Ou umas sandálias com plataforma

Um cesto de flores e um postal

Ou um quadro ou uma mala.

Esta carta podia ser uma caixa de beijinhos

Um apertado xi-coração

Ou uma música dedicada.

Esta carta pode ser uma prenda.

Esta carta sou eu a dizer: gosto de ti.

Esta carta é a nossa amizade crua.

É a forma de estarmos perto.

És também tu.


Com toda a admiração e amizade,


_E se eu fosse puta...Tu lias?_


nota: imagem - obra Love Games de Luis Melo

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Hoje não me apetecia andar em bicos de pés


As palavras saem rápido como se não tivesse tempo para pensá-las.
Não faço esforço. Mas não gosto da maior parte delas.


Hoje não me apetecia andar em bicos de pés.


Gostava de poder ser escritora.



Gostava de poder dar, a todos, cartas de amor. Dessas que arrebatam.
As mesmas que nos obrigam a ter que recuperar.


_E se eu fosse puta...Tu lias?_

terça-feira, 5 de abril de 2011

Carta de Amor ao João


Carta de amor


As palavras saltam da boca só para te dizer coisas de amantes e amados. Da boca, de resto, apenas beijos mudos. Nervosos.

Beijos que desejam, mesmo com o olhar brevemente tapado. Olhos que vêem apenas encantos.

Encantos que torpedos não conseguem revelar, mas que o corpo denuncia.
Corpo em enlevo que não obedece a ordens racionais. Corpo refém de ti.

Tudo em mim está reflectido no agora, no para sempre e no em ti e para ti.

Prometo-te a eternidade, o infinito e o amor mais romântico.
Prometo-te a submissão do meu querer e do meu sentir.

Rendo-me às prisões já tão alertadas por poetas e pessoas.
Rendo-me nesta carta de amor.

Quisesse eu que estas palavras levassem voz e te assaltassem os ouvidos numa melodia com memória.

Tua,

Marianne